
Bic Leu: Pra começar, você poderia nos contar sobre sua introdução à cultura yorubá e como esta se tornou uma influência tão forte no seu trabalho?
Tunde Kelani: A acho que a melhor coisa que meu pai fez pra mim foi me mandar, então com cinco anos de idade, para viver em Abeokuta. Minha educação me apresentou muito cedo à visão de mundo yorubá; à filosofia e à literatura que foram muito importantes. Por falar nisso, na última cena do meu filme, um menino lê uma passagem de Forest of a thousand demons, de D.O. Fagunwa para sua mãe, sob a luz de uma lanterna. Eu acho que estou completamente embebido da visão de mundo yorubá que me foi passada pela comunidade e acho que essa cultura penetrou sob a minha pele no meu sangue e me amarrou completamente ao povo yorubá, de tal forma que muitas vezes eu não sou nada além de um mero representante dos ancestrais que coletivamente me moldaram em um ser humano. Além disso, a educação que tive me tornou capaz de voltar pras minhas raízes. Muitas pessoas que se beneficiaram da educação ocidental se recusam a olhar para traz e cortam a ligação. Mas no meu caso, eu sempre me pego retornando.
Bic Leu: Você mencionou a visão de mundo yorubá. Poderia falar um pouco sobre isso?
Tunde Kelani: Tome o conceito de Omoluwabi, por exemplo, que enfatiza a importância do caráter e da integridade. É um ponto forte da cultura. Você não pode sair da linha porque estará afrontando este aspecto da cultura e ninguém se importa mais com isso hoje em dia. É por isso que, seja de forma consciente ou inconsciente, em minhas interações com as pessoas, com o mundo eu tento agir com um senso de honra. Ainda hoje eu tenho os meus mentores; são pessoas que me mandaram como representante e eu não devo nunca, nunca desapontá-las. No próximo mês estarei no Brasil para mostrar alguns dos meus trabalhos. Quando eu fizer isso, seria apenas o representante das pessoas que me enviaram então há para mim um senso de responsabilidade.
Bic Leu: Você pode falar sobre como essas influencias ou mentores significam para você?
Tunde Kelani: Pra começar, são pessoas de caráter impecável, pessoas de integridade. Depois de ter trabalhado como aprendiz de fotografia, eu fui para a rede de televisão Western Nigeria para ser treinado como câmera. A base do meu caráter foi construída nos 15 anos de televisão e eu tive como mentores a primeira geração dos melhores profissionais da televisão africana. O mesmo acontece a respeito da minha socialização. Meu avô foi o Balogun, o chefe daquela área então as pessoas ainda o vêem em mim, é uma conexão. O problema com a vida da cidade é que ela rompe os laços entre as pessoas. A educação ocidental encoraja você a desprezar seu povo e talvez seja por isso que não temos conseguido nos desenvolver. Sabe, não nos beneficiamos da educação ocidental, não conseguimos aplicá-lo ao local de onde viemos.
Bic Leu: E por falar em fontes originais, de todos os diretores nigerianos hoje, você provavelmente é o que mais se relaciona com os escritores nigerianos. Eu falo da sua relação com o professor Akinwuni Isola e com o professor Femi Osofisan.
Tunde Kelani: Eu acho que quando eu fui morar em Abeokuta, eu sentia falta da minha mãe. Então, assim que eu comecei a aprender a ler e escrever na língua yorubá, eu me refugiei nos livros. E claro, em minhas fantasias. Eu sentia tanto as histórias que quando cheguei ao colégio secundário e descobri outras literaturas, eu amava aqueles autores. Assim meu coração foi direto para a literatura e para os escritores. Eu me lembro quando nos anos 80 conheci Cyprian Ekwensi e me tornei amigo dele... E encontrei Amos Tutuola, antes de sua morte. Eu ia atrás dos escritores porque me fascinavam e faziam crescer minha imaginação. Eu também sempre acompanhei a tradicional arte [da cidade] de Osogbo como Twins Seven-Seven, Muraina Oyelami, Debisi Fabunmi, Jimoh Buraimo, Rufus Ogundele, todas essas pessoas me deixaram uma forte impressão e alimentaram o meu próprio senso de imaginação. Eu sempre estive muito à vontade na companhia de escritores, sabe, porque eu sempre os admirei muito e sempre me deslocava para celebrá-los. Quando eu li The Virgin e fui atrás de Kola Akinlade, descobri que ele escrevia histórias fantásticas na língua yorubá. Mas não se trata apenas da língua yorubá. Tem também Chinua Achebe, claro, eu li todos os seus trabalhos e Ikem Nwankwo. Eu gosto dos escritores africanos de um modo geral.
Voltando ao significado cultura dos seus filmes, o qual o sentido da música e da dança neles? Dos tambores falantes em Sawaroide, às sequências de dança da UNILAG [Universidade de Lagos] em Campus Queen e a cena das mascaras em Ma’ami.
Tunde Kelani: Na cultura de língua yorubá, a vida é inimaginável sem música e dança. Há música, dança e poesia em todos os dias da nossa vida. Para cada atividade há música envolvida, desde a mais simples tarefa doméstica. E, é claro, é por isso que cada criança africana ou yorubá, já está dançando desde os primeiros passos, porque a criança foi gestada em música e dança, e quando o bebe nasce, ele é carregado nas costas de sua mãe embalado com música. Aí, assim que você a coloca no chão, a criança já está dançando. Quando eu tomei contato com o teatro tradicional, eu vi que representar não era suficiente. Você tinha que ter habilidade para cantar, dançar e tocar tambores. O ator tem que ser completo e, no palco, eu posso dizer com propriedade que o teatro yorubá é igualmente impossível sem música e dança. De fato, antes da apresentação da peça propriamente dita, há um número de apresentação, uma coreografia. O tambores yorubá, além de ter funções sociais, também é usado na espiritualidade sendo que cada orixá tem seus passos de dança e música próprios. Mesmo na guerra ou em cortejos reais. Ou seja, meu estilo é claramente uma extensão da minha experiência e vai aparecer em qualquer lugar. Eu faço intencionalmente porque também serve a um propósito documental. Muitas dessas coisas estão se perdendo então eu aproveito qualquer oportunidade para resgatar uma ou duas e colocar no filme para trazê-las de volta, você sabe, de volta à consciência.
Bic Leu: Quais são algumas das peças do teatro tradicional yorubá que o influenciaram?
Tunde Kelani: Acredite, eu tive a sorte de assistir ao vivo alguns dos clássicos yorubás. A primeira vez foi quando eu estava na escola secundária e foi The Palm-Wine Drunkard. O título é em inglês, mas a peça é em yorubá. Depois eu vi Oba Koso de Duro Ladipo; e Kurunmi, uma peça de Ola Rotimi. São peças inesquecíveis. Pra falar a verdade eu estou no momento morrendo de vontade de adaptar todas elas. Espero conseguir apoio e financiamento para rapidamente conseguir resgatar The Palm-Wine Drunkard e também as músicas porque a maioria delas são óperas e seria ótimo se pudéssemos resgatar algumas dessas músicas.
Bic Leu: Esse será provavelmente o seu próximo projeto.
Tunde Kelani: Sim.
Bic Leu: Vamos falar da sua técnica, tudo bem? Como foi a transição de trabalhar com 16mm para celulóide e para a tecnologia digital?
Tunde Kelani: Eu acho que a força motriz é a necessidade de contar a história. Quando eu aprendi fotografia nos tempos do colégio, era uma habilidade de querer fazer aquilo e eu me voltei para o cinema. E me beneficie muito por ter trabalhado na Western Nigerian Television por ter tido acesso a todas aquelas câmeras ótimas e quando a economia entrou em colapso, foi um ponto de virada na minha carreira. Eu tinha que escolher entre buscar uma mídia alternativa ou parar tudo e procurar outra coisa pra fazer. Eu escolhi me apropriar do limitado vídeo análogo da época e pude continuar a contar histórias. Rapidamente, o que me ocorreu foi que era tudo a mesma coisa, apenas a câmera era diferente. E era tudo o que eu precisava e tentei olhar para a tecnologia e, aos poucos, tentar ir além. Não me arrependo dessa decisão. Se me arrependesse, não estaria aqui conversando com você agora. E eu aprendi lições para a minha vida profissional, eu sou um minimalista por causa daquela experiência. Eu não fico me choramingando pelos recursos disponíveis em Hollywood. Ainda hoje, quando se trata de recursos técnicos, eu sempre uso o mínimo necessário para contar a história. As pessoas até se esquecem de que eu não usei uma grua ou stedicam e coisas do gênero. Eu dou um jeito de fazer, mas sem perder a essência da história. Inevitavelmente, quando os computadores pessoais entraram na cena, é claro que eu fiquei interessado em aos poucos, adotei. Eu vou atrás de qualquer tecnologia que aparece. Hoje, posso dizer com um bom grau de segurança, que temos as ferramentas necessárias para trabalhar.
Bic Leu: Na FESPACO 2011 você comentou comigo que o celulóide iria se extinguir.
Tunde Kelani: Já está acontecendo. De fato, está acontecendo mais rápido do que eu imaginava. Pense nos cineastas americanos como Peter Jackson, George Lukas e todos os outros. A irem para o 3-D eles estão adotando a tecnologia digital e os fabricantes estão reagindo rapidamente. Eles vão tentando antecipar as necessidades dos cineastas fazendo equipamentos cada vez mais baratos com a nova fascinação pelo 3-D e isso vai levar pra baixo o custo da grande tecnologia.
Bic Leu: Eu gostaria de falar das mensagens nos seus filmes. Eu percebo que sempre há uma mensagem social e política que ressoam com o clima geral na Nigéria em um determinado momento. Sawaroide é um escrutínio do pacto tradicional entre o rei e a comunidade, que se parece muito com Abacha*, enquanto Arugba é um conto sobre um líder mentiroso, uma caricatura de Obasanjo*.
Tunde Kelani: Eu não sou um ativista, não mesmo. Sou apenas um contador de histórias e quero dividir as minhas experiências, mas não posso fugir do fato de que tenho uma consciência. Acho que foi o professor Wole Soyinka que se referiu a mim como uma câmera com consciência e algumas dessas coisas são impossíveis de serem ignoradas. Talvez eu tenha que encontrar o equilíbrio entre contar uma história, sem digressões desnecessárias, mas essas coisas estão lá, são reais e eu quase sinto vergonha... Veja o que aconteceu quando concluímos Arugba. Os acontecimentos políticos na Nigéria quase destruíram Arugba. Quem poderia imaginar que uma pessoa que havia sido presa por corrupção como Bode George iria sair da prisão para ser recebido por uma procissão jubilante que o levaria até a Igreja Catedral de Cristo para uma ação de graças? Isso tudo nos roubou o trabalho. Se eu fizesse Arugba 2, esse seria o começo do filme. Sabe, às vezes essas coisas invadem a trama sem que a gente tenha que fazer nada (risos). Sabe, se você abrir o jornal de hoje, você pode fazer um filme do que você lê. O governador Gbenga Danies acabou de ser preso pela EFCC (Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros) por corrupção. O que pode estar no enredo de qualquer filme não dá mais tempo de sugerir, antes que a gente coloque a caneta no papel já está acontecendo. Às vezes eu penso que deveria sair por aí seguindo essas pessoas com uma câmera e depois editar e mandar direito pro lançamento, não temos mais que apresentar essas coisas como ficção. Pegue a câmera, vá para a Assembléia, filme um pouco e depois sai atrás dessas pessoas e você terá um filme. De qualquer modo, esse não é o propósito do meu trabalho. Eu não sou um ativista, talvez eu seja um observador e tenho histórias para contar e parte do trabalha inevitavelmente é documental.
Bic Leu: Olhando a lista de nove filmes que você selecionou para a mostra Bem-Vindo a Nollywood, como você acha que esses filmes podem apresentar a indústria nigeriana do cinema para o público brasileiro?
Tunde Kelani: Bom, isso depende de que aspecto da indústria filmográfica nigeriana você está falando. Se você tem alguma idéia formada sobre com o que se parece um filme nigeriano, poderá ficar agradavelmente surpreso. Se você já conhece a reputação de Nollywood, talvez já tenha uma opinião a respeito do que vai ver. Mas esses filmes mostram um outro lado do conceito de Nollywood que fica um pouco obscurecido pela euforia de Nollywood e eu acho que é um lado que representa mais que nós somos. Os outros filmes são mais faz-de-conta que esse que escolhi para serem exibidos no Brasil. Os filmes estão mais próximos das pessoas e às vezes representam a história, às vezes são documentários sobre as pessoas.
Bic Leu: Interessante a sua escolha da visão de mundo yorubá, uma vez que muitos dos escravos que deixaram a Nigéria até o fim do século XIX foram levados para o Brasil.
Tunde Kelani: Essa questão é essencial porque os filmes podem ter valor não apenas para os yorubás da terra natal, mas especialmente para aqueles da diáspora que, mesmo com 200 ou 300 anos de comércio escravista e pelo modo como foram parar daquele lado do mundo, muitos permaneceram fiéis e próximos da cultura, muitas vezes mais que os africanos. Então, se não for por outro motivo, eles podem assistir aos filmes para talvez encontrar ou identificar alguns dos temas e imagens familiares.
Bic Leu: É verdade. Você comentava que os cineastas nigerianos têm fama de trabalharem muito rápido e de trabalharem com orçamentos muito modestos, mas isso não se aplica ao que você tem feito. E no Brasil há apoio governamental para a indústria do cinema sendo que muitos filmes só podem ser feitos em função do financiamento público. Você poderia falar sobre o que pensa sobre isso e sobre como seus filmes são distribuídos, sobre, por exemplo, o caso do seu filme Ma’ami?
Tunde Kelani: Bem, eu idealizei Ma’ami para que pudesse ser feito rapidamente e tentei aprender a fazer isso rapidamente. Aqueles pintores que eu admirava, eu pensava que, uma vez que tivessem uma tela e suas cores, podiam pintar um quadro em três dias, se quisessem. E eu achava que pintores não passavam por problemas financeiros porque eles podiam rapidamente pintar e sair vendendo! E agora eu descubro que muitos deles gastam um bom tempo em uma única tela. Eu senti que quando começo um filme, é como uma pintura que está sujeita a outros fatores da sua existência. Às vezes são as obras que ditam o ritmo em que querem ser feitas e quando querem ser lançadas. Isso fica fora das minhas mãos como em Ma’ami, que eu pensei poder filmar em quatro ou seix meses e agora o filme fez seu primeiro aniversário. Quem sabe, já que não temos tantos recursos aqui na Nigéria, eu poderia fazer a mixagem final no Brasil. Eu vi filmes brasileiros e fique muito impressionado. Eles começaram essa indústria muitos anos antes de nós e eu sei que estão muito mais desenvolvidos nesse campo que nós. Então, pra falar a verdade, também estou procurando por parcerias. Se eu encontrar um bom parceiro, podemos fazer a mixagem final de Ma’ami por lá.
Tunde Kelani: Eu estou animado não apenas pelo festival, mas também pela interação entre nós e os brasileiros e eu espero que com o nosso povo da América do Sul. Eu tenho ouvido muito sobre o Brasil e estou louco para ter essa experiência. É por isso que, depois do festival, quero aprender tudo o que puder e me divertir, além de cogitar a possibilidade de colaboração em um filme sobre a diáspora, ligando os elementos yorubá tanto da África como da diáspora. Há quatro anos, legendamos Sawaroide em português não tínhamos a menor idéia do que iríamos fazer com ele. Agora eu estou feliz que tenhamos feito isso porque agora podemos nos dirigir a um outro público que pode vê-lo sob uma outra luz, Mesmo no Black Heritage Festival, o professor Wole Soyinka procura influências negras no mediterrâneo, em Cuba, Itália e coisas desse tipo. Então, há bastante expectativa por colaborações futuras.
* Dois ex-presidentes da Nigéria.